Jamil Al Malik

Fabuloso

Description:

Aparência/Descrição: Jamil é alto, sua pele bronzeada pelo sol contrastam com cabelos lisos e pretos como asas de um corvo, olhos em tom púrpura intenso como as partes mais profundas do Oceano de Ilaha. Traços persas se manifestam no rosto forte: seu maxilar quadrado parece esculpido em mármore, seu nariz pequeno em contraste com a boca generosa e os olhos grandes são impactantes e harmoniosos. Seu tom de voz é baixo, porém firme, mesmo quando algo parece lhe desagradar, mantém o controle, sendo imponente e sério em suas tarefas como Duque. Em funções na corte, suas vestes são tipicamente al-Malik: confortáveis, vibrantes e luxuosas. No dia a dia essencialmente práticas e simples cobertas por longas capas.

Entourage: Durante a adolescência viajou entre Criticorum e Istakhr com seu tutor, Gilles Torenson. Atualmente é visto na companhia do Inquisidor Tirael do templo Avesti; um menino de mais ou menos seis anos de idade chamado Anakin; o Comandante dos Charioteers Nicolas Zikard; Merkal um Ukari Engenheiro e suas seguranças, Selina de Severus e Nikaal.

Roleplaying notes: Dividido entre o fascínio pelas estrelas e o peso das expectativas de suas avós sobre seu destino como Duque e um dos Herdeiros da Casa al-Malik, tem como maior inimigo sua própria personalidade. Jamil sentiu na pele a morte prematura dos pais. Criado por suas avós, foi educado na cultura de Casas completamente diferentes, viveu o absoluto em dualidade partindo do extremamente certo ao extremamente errado, se apegou aos protocolos e obrigações de um nobre como meio termo: despreza nobres que não cumprem suas obrigações, se coloca em posição superior até mesmo ao de seus iguais.
Fascinado por histórias, carismático, sempre bem-humorado, falante e sorridente, no fundo não passa de um jovem confuso com dificuldade em dedicar atenção a uma única coisa ou pessoa por muito tempo.
Gosta de se sentir desafiado provando superioridade individual, quando não consegue, se frustra, não admite o orgulho ferido, aliás, não admite os próprios erros ou excessiva vaidade. Muitas vezes é arrogante sem se dar conta por sempre ter vivido em ambientes luxuosos, em suma, é um nobre não admitindo que age como tal. Encara o que é de fora de seu habitat como novidade, sente prazer em viver experiências que chocariam a nobreza, geralmente o fazendo com discrição pelo único prazer de experimentar novas sensações.
Na esperança de atingir a maturidade para ser um homem por seus próprios atos, Jamil cultiva algumas virtudes: tenta recuperar a fé perdida na infância, busca nas histórias populares inspiração para se tornar admirado e respeitado por seus atos, não só riqueza e sobrenome algumas vezes usados para ajudar necessitados.
Movido por sentimentos, apaixonadamente defende o que acredita, difícil é motivá-lo. Para se tornar diferente do que é, Jamil busca o equilíbrio entre honra e sabedoria não tolerando injustiças de qualquer natureza.

Bio:

Muitas histórias são contadas em Perleria a respeito do Duque Jamil al-Malik e Heideah Juandaastas, sua esposa. Algumas são repetidas há quase quarenta anos se tornando verdadeiras alegorias junto a população do continente. Antes de qualquer história sempre verei Jamil e Heideah como meus pais. Se, por algum momento suspeitasse que partiriam tão cedo teria aproveitado muito mais os anos vividos ao lado deles. Hoje, o que me resta são lembranças compostas por um emaranhado de histórias, fragmentos que compõem um passado herdado neste presente confuso que determina meu futuro como um Duque al-Malik.

Muitas histórias ouvi de minhas avós além daquelas que meus próprios pais contaram. Papai nasceu e viveu sua juventude em Istakhr. Além de ser o que muitos consideram como um típico nobre al-Malik tinha fama principalmente por sempre ser visto em cassinos: exímio jogador sempre cercado pelas mais belas cortesãs. Por volta dos vinte anos deixou Istakhr retornando apenas alguns anos depois, essa parte de sua vida é bastante nebulosa, sua morte chegou antes de palavras sobre estes anos de sua juventude.

Em idos de 4.952 papai seguiu para Criticorum assumindo para alegria de uns e tristeza de muitos o Ducado de Perleria. Posso afirmar que não existia uma simpatia, tão pouco confiança entre os al-Malik de Criticorum e Istakhr. Criticorum é um mundo cheio de peculiaridades, inclusive é famoso por tal. Entre os mundos regidos por nossa Casa é cosmopolita e rico por exportar itens de alta tecnologia. A mesma legislação que permite a prostituição, produção e consumo de certas drogas é para coisas mais prosaicas rígida em locais estratégicos do planeta, serve aos propósitos al-Malik em eliminar aqueles que se apresentem como um problema. Nós, al-Malik, somos levados a agir com ferro e fogo para manter Criticorum na guerra aberta ou agora na paz declarada. Devido a sua posição estratégica, Criticorum é tudo, menos um planeta tranquilo. É um mundo de contradições, assim como nós, al-Malik.

Nas terras regidas por meu falecido pai em North Perleria há a exploração de petróleo. É uma região gelada e inóspita controlada pelo temperamento da mãe natureza, no entanto, esta exploração era lucrativa o suficiente para justificar todo e qualquer esforço empreendido por meu pai para que continuassem funcionando durante as Guerras Imperiais. Na ilha de Mirtho entre Perleria e North Perleria está instalado nosso complexo petroquímico cujo acesso até hoje é restrito e rigidamente controlado. Foi no retorno de uma de suas primeiras incursões a Mirtho que papai teve problemas com o transporte aéreo obrigando sua comitiva a um pouso forçado nas montanhas Wyeming.

Feridos e isolados nesta região remota de Perleria, não tiveram opção a não ser buscar ajuda. Uma série de canções e poemas a respeito deste percurso realizado nas montanhas Wyeming por meu pai ganharam força no imaginário de nosso povo. Por vários dias a comitiva caminhou sem encontrar uma única alma humana, sujeitos as intempéries e perigos de toda natureza quase ao se darem por vencidos alcançaram o limiar das terras da Marquesa Mirka Juandaastas, onde se deu o primeiro encontro de meu pai com Heideah Juandaastas, minha mãe.

Os bardos cantam que mamãe além de belíssima era uma excelente duelista e de fato, era. Na ocasião acompanhava uma pequena tropa no rastro de uma horda de saqueadores combatidos em uma vila três dias de viagem distante dali. Julgaram que os sobreviventes da comitiva de meu pai fossem tais fugitivos, houve combate entre os grupos até que papai conseguiu se identificar como Duque. Ele dizia ter se apaixonado por mamãe no primeiro golpe de espada dela recebido. Mamãe o conquistara ali.

Heideah, constrangida por ter atacado o Duque, explicou toda a situação, após desculpar-se ofereceu hospedagem no castelo de minha avó, Mirka Juandaastas. Hospedados e cuidados com toda as honrarias possíveis nas terras Juandaastas, mamãe o evitou o máximo que pode, os longos dias de viagem até o castelo de minha avó ao lado de papai a tinham abalado interiormente: papai a cortejou de todas as formas possíveis. No castelo, não conformado com a ausência regular de mamãe, questionou-a, a resposta era sempre a mesma: estava ocupada ajudando a população local, papai nunca tinha visto uma nobre se envolver tanto com os servos, aquilo foi… Um choque que logo seria explicado pela forte devoção de minha mãe.

A notória fama de meu pai como conquistador havia deixado mamãe em dúvida quanto aos insistentes gracejos durante a viagem, confundindo-a. Papai dizia que, na verdade, mamãe só não queria admitir que já estava apaixonada, só precisava de tempo para aceitar este fato. Quanto a isto, os dois discutiam, mas de uma forma que não me julgo capaz de transcrever, mas tentarei. Meu pai tinha certeza de que mamãe era o amor de sua vida, mas devido a grande diferença de idade entre eles, mamãe precisava de tempo para entender que ele seria o único homem de sua vida. E assim aconteceu, até na morte permaneceram juntos. Nestas horas me pergunto, se as coisas tivessem acontecido de forma diferente se um conseguiria viver sem o outro, as vezes tive a sensação de mesmo tendo sido tão desejado por eles… Se o amor que sentiam por mim em algum momento chegou a se igualar ao amor que tinham um pelo outro.

No final das contas, arrasado pela frieza de minha mãe quando finalmente retornaria a Larrane, papai formalmente pediu permissão da Marquesa para voltar e cortejar sua filha. Vovó Mirka se sentiu lisonjeada pelo interesse em sua única filha, mas, infelizmente não seria possível este cortejo: mamãe já tinha marcada sua viagem para Pentateuco. Antes de conhecer meu pai planejara ingressar na Ordem Eskatônica, nesta época ainda não reconhecida pela Igreja. Mamãe sonhava seguir os passos de nossa ancestral Mariah Juandaastas que lutara bravamente contra os Simbiontes em Stigmata. Dois anos mamãe viveria no seminário Eskatônico, se mudasse de ideia quanto ao real ingresso na ordem quando retornasse a Criticorum papai poderia cortejá-la.

Meu pai dizia que só de pensar que os membros da Ordem Eskatônica assumiam o voto do celibato, literalmente não conseguiu reagir, minha mãe havia tocado seu coração de forma irremediável, conquistá-la não seria uma tarefa fácil. Minha avó não disse exatamente “isso”, mas deu entender a ele que se quisesse realmente se casar com minha mãe deveria se provar valoroso. Papai sabia que sua fama junto as mulheres não era das melhores, não combinava em nada com a educação de minha mãe, os Juandaastas eram muito diferentes dos al-Malik, precisaria superar o abismo entre estas Casas para conquistá-la.

Como planejado mamãe passou dois anos em Pentateuco retornando a Criticorum pouco antes do início das Guerras Imperiais. Nem minha avó ou mãe pareciam esperar que papai retornasse as terras Juandaastas. Em favor dele contavam muitas coisas como ter parado com as jogatinas e não mais ter sido visto publicamente na companhia de cortesãs. Papai se dedicara incansavelmente a movimentar a economia fazendo vários acordos com as Guildas e reuniões mais regulares com os altos nobres do continente que lhe eram vassalos, na verdade nestes dois anos já estava se preparando para a guerra. Mas bem, isso eu só descobriria anos depois. Creio que essas descobertas me ajudaram a compreender o mundo em que vivo e ao mesmo tempo fizeram com que duvidasse de todas as imagens que construí na infância.

Tendo finalmente a permissão para cortejar mamãe, não poupou esforços em definitivamente conquistá-la não só com palavras, mas atitudes. Esse momento da vida de meus pais é um dos mais cantados por todo o continente até hoje. Falam principalmente de como o amor verdadeiro é capaz de mudar o coração de um homem e transformá-lo, e até onde me lembro, não tenho nenhuma dúvida sobre este amor, pelo contrário é uma das poucas certezas que carrego. Via esse amor na maneira como meus pais se olhavam, como se tratavam.

Minha mãe dizia que em Pentateuco teve dúvidas se conseguiria firmar seus votos já que a imagem daquele al-Malik “safado” não saia de sua mente. Minha dúvida reside na forma como se encara este sentimento: existe? Existe, mas é algo para poucos. Cheguei muitas vezes a pensar que seria fruto de uma saudosa lembrança da infância mas a vivência na corte mostrou que o amor dos meus pais era diferente do amor vivido pela maioria de nós, o amor entre eles era de fato, verdadeiro.

Todas as vezes que estive em Istakhr, minha avó paterna, Drusila al-Malik sempre enfatizou nunca ter concordado com o casamento de meus pais. Para ela, papai deveria ter se casado com uma prima al-Malik local aproximando os al-Malik de Istakhr e Criticorum. Na verdade penso que minha avó falava isso por que nunca superou a morte de meu pai, neste ponto posso dizer que as vezes sinto que este sentimento se estende a mim. Vovó odiava minha mãe com todas as forças, culpando-a por tudo o que não deu certo na vida de meu pai. Mas ele era muito feliz com minha mãe. Estaria errado em sua felicidade?

Vó Drusila dizia que fora esse “amor”, sentimento para ser cantado por bardos, algo inexistente entre os nobres, a ruína de meu pai. O “amor” era recheado de protocolos exatamente para ser controlado e cantado pelo povo. Vovó nunca concordara com todas as políticas igualitárias defendidas por meu pai, era uma justiça desnecessária para alienígenas. Perleria fazia muito mais por eles do que toda Criticorum e outros mundos al-Malik. Para vovó, Heideah havia enfeitiçado meu pai e nada, absolutamente nada a fez mudar de ideia até hoje. Confesso que em alguns momentos cheguei a concordar com vó Drusila. Tudo aquilo que meus pais realizaram juntos os levou a uma morte estúpida.

No dia em que morreram, minha fé falhou. Como acreditar que duas pessoas tão justas e boas com seu povo fosse por eles traídos? Não pude nem ao menos me despedir, tão pouco chorar sobre seus corpos perdidos na imensidão do oceano de Ilaha. Minha vida se tornou um verdadeiro inferno. Em meio a disputa por minha guarda, fui reduzido a um título, não era uma criança que perdera os pais e sim alguém jovem demais que recebia um prospero Ducado. Precisei guardar no fundo da mente tudo aquilo que meus pais representaram, suportando todo o tipo de chantagem emocional advindas dos al-Malik e Juandaastas. Se já tinha dúvidas a respeito das pessoas a meu redor, estas foram multiplicadas quase ao infinito.

Depois de uma novela judicial protagonizada pelos Reeves a serviço dos Juandaastas e al-Malik, chegou-se ao acordo de que Perleria seria administrada por minha avó materna até que eu estivesse apto a assumi-la definitivamente, eu exerceria a função simbólica como Duque. Caberia a minha avó materna o voto de minerva em todas as questões administrativas. Quanto a mim… Passaria um ano em Criticorum, outro ano em Istakhr sob a guarda de um tutor da Casa Torenson já que por insistência dos al-Malik eu não deveria ser influenciado pelos Juandaastas (como meu pai tanto o fora) receberia uma educação a altura de minha titulação como Duque. Neste ponto existem as entrelinhas do acordo, minha avó materna ao assumir minhas terras não deveria interferir nos costumes al-Malik, eu teria a liberdade para ganhar as estrelas e finalizar meu aprendizado como era permitido a todos os jovens al-Malik. Quando? Como? Isso nunca foi claro, acredito que caberia a mim esta decisão.

Não seria exagero afirmar que me afastei dos Juandaastas, embora ainda tenha mais simpatia pela família de minha mãe do que pela família de meu pai. Tudo o que vivi em Criticorum foi desconstruído em Istakhr. Tudo o que vivi em Istakhr foi testado a cada retorno a Criticorum.

Se em Criticorum, vivi os momentos mais felizes da infância, não nego que os anos da adolescência em Istakhr ampliaram minhas concepções sobre pessoas e coisas. Mesmo tendo em Criticorum um lar, as lembranças de meus pais estavam presentes em tudo, em todos. Voltar para casa significava me deparar com todo um passado reconstruído em pensamentos mas que fisicamente não estava lá como as paredes do palácio. Istakhr apresentava uma efervescência intelectual e cultural fazendo dias e noites serem curtos para tudo o que eu queria ver e fazer.

Em Istakhr me entreguei aos desafios da mente e prazeres do corpo, vó Mirka diz que me perdi graças a estes anos em Istakhr. Ao me afastar dos Juandaastas, me aproximei dos primos al-Malik, como todos “bons” adolescentes da alta nobreza nos metemos nos mais diversos tipos de confusão permitidas nesta idade, mesmo que Criticorum tivesse a prostituição e o uso de drogas legalizados, foi em Istakhr que aprendi a apreciar a companhia de cortesãs e usar os mais diversos tipos de drogas para fugir da dualidade que vivo desde a morte de meus pais.

Meu maior problema na época, era voltar pra Criticorum e diminuir o ritmo depois de uma temporada de noitadas épicas que fariam vó Mirka se arrepiar enquanto vó Drusila incentivava toda a sorte de exageros que eu e meus primos cometíamos. Ela dizia que todo homem precisava passar por esse tipo de experiência na juventude para que ao amadurecer entendesse, por exemplo, o papel das cortesãs em nossa sociedade: os segredos das alcovas. Vó Drusila dizia muitas outras coisas que eu, mesmo sem grandes travas morais, me sinto pudico demais para reproduzir.

Desde que o acordo sobre minha guarda entre os al-Malik e Juandaastas se firmou fui acompanhado seja em Criticorum ou Istakhr pelo senhor Gilles Torenson, meu tutor. Se existe alguém com a qual me tornei próximo em todos estes anos foi o senhor Gilles. Meus dilemas existenciais eram com ele divididos fossem nas aulas de etiqueta ou nos passeios que realizávamos. Aprendi muito mais com Gilles do que minhas avós poderiam imaginar. Suspeito que ao menos minha avó paterna saiba de algumas coisas relacionadas a minha… Bem, predileção por homens, mas desde que faça um bom casamento, é algo aceitável. Sempre fui muito discreto nos meus relacionamentos com outros homens, sempre.

Tudo na corte se resume as aparências. Através dos ensinamentos do senhor Gilles aprendi a ser discreto. Descobri muitos outros nobres com a mesma predileção sexual sendo tão discretos quanto eu. Uns mais, outros menos, claro. Em Istakhr tive mais facilidade de conseguir amantes do sexo masculino do que em Criticorum, sendo que apenas em minhas idas a Acheon, bem longe dos olhos e ouvidos da minha avó materna é que busquei por este entretenimento, por respeito assim agi me limitando a dormir com uma ou outra cortesã em Larrane. Não costumo dar atenção ao que de mim falam na corte ou mídia, mas não me sentiria bem em quebrar ainda mais a imagem que vó Mirka tem de mim, a contragosto aceitava a visita das cortesãs, não conseguiria nem imaginar como vovó reagiria a meu gosto particular por outros homens.

O senhor Gilles foi por muito tempo não apenas meu tutor, mas amante, o primeiro diga-se de passagem. Em meio a confusão que se seguiu após a morte dos meus pais, foi meu porto seguro. Enquanto todos me viam como o jovem Duque, ele me via como Jamil. É fácil dizer o que se espera de um Duque, mas não é fácil dizer o que se espera de um adolescente. É fácil criar uma imagem sobre um Duque, mas e a pessoa por trás do título? O senhor Gilles se preocupava comigo, eu era apenas um garoto que perdera os pais.

Não tenho problemas em dizer tudo aquilo que devo fazer como Duque, fui educado para viver sob este título. Mas e aquilo que devo fazer por mim? Um de meus problemas talvez seja flutuar hoje entre a efemeridade de meus desejos. Uma das poucas certezas que tenho é que não vou cair na mesma armadilha que meu pai. Prefiro manter distância afetiva das mulheres, embora faça muito sucesso entre elas e não as repudie, prefiro a companhia das cortesãs para que este envolvimento não vá além de uma noite.

Tenho consciência de que tudo que meus pais construíram é minha obrigação manter e melhorar, isso é de mim esperado. Este sentimento é não apenas uma dívida com a memória de meus pais, é um dever como Duque. Confesso que decepção e muitas dúvidas me tomaram quando algumas “verdades” a respeito de meus pais foram ao longo dos anos reveladas a mim.

Duvidei de minha crença na causa de meus pais por anos a fio após o atentado que tirou não apenas suas vidas, mas a regência de Criticorum. Como al-Malik isto é… Inaceitável. Segundo vó Drusila, um ano depois da morte de meu pai finalmente quando o planeta fora retomado, se papai estivesse vivo poderia ter se tornado regente de Criticorum, ao menos isso estava nos planos de nossos parentes em Istakhr. Não foi uma descoberta agradável, se minha avó paterna queria me envolver na competição pela sucessão da Casa, conseguiu. Me irritei com os comentários de vó Drusila a respeito de meu pai, não vou mencionar os ácidos comentários sobre minha mãe, a cada ano vó Drusila se torna mais rabugenta! Não vou “estagnar” como habilmente provocou em minha última viagem a Istakhr.

Enfatizo que vó Drusila em vários momentos fez questão de destruir todo o romantismo que cercava a figura de meus pais e seus ideais. Eu, como todo garoto pensava em meu pai como um herói defendendo a igualdade com alienígenas, no entanto, como aprendi com Vó Drusila: para um al-Malik, esse romantismo serve apenas para ser cantado pelos bardos e isso é algo considerado essencial para nós.

Descobertas. A medida em que amadureci tomei ciência de nossas atividades formais e não tão formais. Com meu pai aprendi que a economia deve ser constante seja em tempos de guerra declarada ou de paz relativa. Só entenderia essa frase muitos anos depois de sua morte. Perleria é uma região bem conservadora em um planeta al-Malik, ao mesmo tempo em que temos nossa cultura agrária ao sul do continente, ao norte a extração e refino de petróleo, na capital há concentração de indústrias alimentícias onde a produção dos campos e a pesca são processadas. Posteriormente distribuídas aos mercados de Criticorum, saem do espaço porto de Ost exportações para outros mundos. Esta é a parte formal de minha riqueza.

Durante as guerras imperiais Perleria serviu como “celeiro” oficialmente fornecendo combustível e alimento, extraoficialmente armando as tropas al-Malik. Fossem as tropas que lutaram contra os Decados durante a ocupação de Criticorum ou tropas alocadas em outros mundos onde lutassem em nome dos al-Malik. Por uma questão estratégica foi e ainda é mantido como segredo nosso complexo de produção de armamentos pesados nas montanhas Wyeming.

Vó Drusila sempre afirma que meu pai quando conheceu mamãe não estava só voltando da refinaria de Mirtho, estava prospectando nas montanhas Wyeming um bom local para se construir nosso novo complexo bélico. Ela sempre diz que sou tão impulsivo quanto ele, mas que apesar deste defeito, meu pai serviu muito bem a nossa Casa. Como já previra a inteligência al-Malik, haveria guerra e papai fora enviado para Criticorum a fim de fornecer subsídios para as tropas al-Malik. Istakhr não poderia depender dos al-Malik locais, sob o risco de mais uma vez perdermos Criticorum.

Perleria é geograficamente isolada pelo oceano de Ilaha da grande massa terrestre de Salamandra. Não possui espaço porto “oficial”, some isto as políticas de incentivo à natalidade dos servos, igualdade civil para alienígenas e privilégios dados tanto a homens livres quanto servos que se alistarem nos exércitos al-Malik. Pelo bem ou pelo mal, estes (entre outros) subterfúgios serviram para que Perleria fosse a região menos afetada pela destruição dos combates ocorridos nas Guerras Imperiais em Criticorum.

Em nossas terras há sobretudo respeito pela figura de meus pais, depois do atentado a devoção se multiplicou, foram elevados ao status de verdadeiros heróis para nossa população. Ao menos três gerações de nosso povo vive sobre o domínio das políticas instaladas por eles e mantidas pelos nobres vassalos, Perleria se fortaleceu ao custo das Guerras Imperiais: afastou de si o fantasma da guerra civil ao controlar sua população pela prosperidade econômica aliada a rigidez das leis diferente do que ocorre em Tabrast, Isfahan e Yintrai. Não é interessante para a indústria de armamentos ocultas em nossas montanhas que sejam usadas onde são produzidas por isso execuções eram e ainda são frequentemente realizadas em Larrane. Em Perleria a palavra perdão não se aplica a qualquer um que possa considerar a hipótese de abalar a ordem estabelecida e lucrativos negócios.

Arrasou-me saber que no passado, papai resguardado por nossas duras leis foi responsável pela execução de famílias inteiras de nobres no continente. Durante as Guerras Imperiais essas execuções, hoje raras, eram uma prática comum entre os al-Malik eliminando definitivamente os que se revoltaram contra Istakhr ou se debandaram para o lado dos Decados. Criticorum era importante demais para nós ao ponto de justificarmos todo tipo de ação realizada até mesmo contra nosso próprio sangue. Os al-Malik executados foram substituídos por nobres leais a meu pai, alguns críticos dizem que ele se aproveitou da guerra para executar os al-Malik que tinham resistência a política de igualdade aos alienígenas. Ninguém nunca provou, nem conseguirá provar nada segundo vó Drusila, afinal de contas, como Duque, meu pai controlava o legítimo poder de repressão do Estado tendo as leis a seu lado nos tempos de guerra, muito conveniente por sinal.

Eliminados os nobres que se opunham a meu pai, o que ele não calculou foi a resistência e intolerância dos homens livres. Papai nunca considerou que as manifestações terroristas contrárias a inclusão dos alienígenas fossem tão longe, explosões de veículos e ataque aos prédios públicos ocorriam ocasionalmente em Perleria, especialmente em Larrane. Havia a repressão aos ataques, mas o imponderável se mostrou mais forte do que meu pai.

Quando meus pais morreram, a primeira hipótese sobre o assassinato foi considerar o envolvimento de nossos primos al-Malik locais. Mesmo que tenha nascido em Criticorum, sou considerado pelos primos locais um al-Malik de Istakhr, como era de se esperar, nós não nos damos muito bem. As investigações mostraram que o atentado partiu dos homens livres de Perleria alimentados pela intolerância às conquistadas dos alienígenas ao longo dos quarenta anos de governo de meu pai.

Isso me levou a questionar por vários anos até que ponto deveria existir igualdade entre humanos e alienígenas. Minha mãe como Juandaastas acreditava na igualdade de direitos entre raças diferentes, meu pai levantou essa bandeira levando-a até as últimas consequências. Se por um lado isso fez muito bem as nossas terras, o mesmo não aconteceu para mim. Enquanto Perleria perdeu o Duque e a Duquesa, perdi meus pais.

Sempre ouço o quanto os Ukari são traiçoeiros, não são os humanos tão ou mais traiçoeiros que os Ukari? Foram humanos alimentados pela prosperidade criada pelas políticas de meu pai os responsáveis por sua morte. Homens livres contrários a política de igualdade. Homens livres que em sua infinita intolerância acreditavam que ao eliminarem meus pais, eliminariam seu legado, enganaram-se. A morte do Duque e Duquesa fortaleceu ainda mais esta causa em nossas terras, mas em mim como uma criança… Senti no corpo e alma suas mortes.

As vezes me pergunto se meu papel deveria ser de filho ou sucessor do Ducado de Perleria. Meu pai sabia que mamãe dificilmente conseguiria dar-lhe um herdeiro quando se casaram. Manter o funcionamento das fábricas e o exército durante as Guerras Imperiais ocupou tanto meu pai que seu sucesso em resguardar com armas e alimentos as tropas leais aos al-Malik, fez com que esse “erro” ao se casar com uma Juandaastas tida como estéril fosse aceito por nossos parentes em Istakhr quando minha mãe finalmente conseguiu conceber.

Aos olhos dos Juandaastas e do povo de Perleria foi um milagre ocorrido depois da viagem que minha mãe fez ao Santuário de Grail. Quase vinte anos de casamento, nenhum herdeiro. Papai convenceu minha mãe, mesmo a contragosto a se submeter a um tratamento de fertilização em Leagueheim. Obviamente a visita a Leagueheim é conhecida principalmente pelo lado al-Malik da família, segundo vó Drusila meu nascimento custou caro até mesmo para os padrões de vida de um Duque. Mamãe sempre atribuiu meu nascimento a visita a Grail, sou mais tentando a acreditar que Leagueheim é que possibilitou meu nascimento.

Fisicamente me tornei tão alto quanto papai, possuo compleições tipicamente persas como ele somente superadas pela harmonia nos traços e olhos herdados de minha mãe, aqueles que conheceram meus pais dizem que é inegável que Jamil e Heideah vivem em mim.

É estranho ser o resultado da mistura de Casas tão diferentes, ser meio al-Malik meio Juandaastas nunca foi fácil. De um lado, vó Drusila implicando com meu uso de insignias Juandaastas em Istakhr dizia que destoavam da imagem de um legítimo Príncipe al-Malik, para provocá-la citava antepassados Juandaastas e seus grandes feitos, não eram poucos! Do outro lado, vó Mirka reprimindo quaisquer referências por mais simples que fossem a meus parentes em Istakhr, criticando tudo, absolutamente tudo o que faziam, exceção feita unicamente a meu tio Hakim, por motivos óbvios. Amir era o alvo preferido de vó Mirka, um verdadeiro exemplo de tudo que eu não deveria ser, na cabeça de vovó, Amir me levou para o “mal caminho”, admito, deu um empurrãozinho, mas fui por livre e espontânea vontade.

Herdei de Heideah o gosto pela natureza, toda a pouca fé e altruísmo que tenho são devidas as lembranças que dela tenho. Mamãe era tudo o que os bardos cantam e altamente espiritualizada. Sempre caridosa e pronta a auxiliar a população era constantemente vista nos orfanatos ou nos bairros destinados aos alienígenas em Larrane para espanto da nobreza. Ao contrário da maioria dos nobres não mantinha nenhuma distância do povo, pelo contrário estava sempre nas ruas, cumprimentando a todos com um sorriso no rosto. O tipo de caridade que fazia não se resumia a doações, mas a ações e vinham do fundo de seu coração, via isso quando era criança.

Papai era meu herói. Até sua morte, acreditei piamente que papai era realmente um herói. Vivia sempre ocupado em reuniões com os nobres vassalos, altos oficiais do exército, membros das Guildas ou recebendo emissários de Istakhr. Mesmo ocupado me mantinha sempre que possível perto de si, várias vezes assisti a reuniões presididas por meu pai, sua presença era algo impressionante. Sua voz era baixa, sempre firme e forte, mesmo quando algo parecia lhe desagradar, não perdia o controle, contornando habilmente qualquer situação. Imponente e sério em suas tarefas como Duque, apenas minha mãe conseguia quebrar sua postura autoritária: ao vê-la meu pai sempre sorria, não me lembro de muitas outras ocasiões em que relaxasse ao ponto de sorrir tão sinceramente, afinal de contas… Estávamos saindo de uma guerra, papai era duro e distante até mesmo comigo na maior parte do tempo.

A imagem do meu pai se esvaiu em Istakhr quando descobri que por trás daquele homem que tanto admirei havia de fato, um… Verdadeiro al-Malik. Quanta ingenuidade minha acreditar que um Duque al-Malik pudesse ser verdadeiramente… Honrando? Minhas ideias de infância a respeito do papel de um nobre foram ao chão. Papai poderia até ser honrado, afinal de contas, isso depende do ponto de vista dos nossos aliados e inimigos. Para o povo de Perleria, nobres vassalos e parentes em Istakhr, meu pai era tido como um exemplo. Para os inimigos dos ideais de meu pai e da Casa al-Malik a história é definitivamente outra.

Uma das coisas que nunca esquecerei foram algumas das últimas palavras de meu pai, ditas poucos dias antes de sua morte: “Seja no alvorecer dos sóis que se calam, seja no crepúsculo das sombras carmim, atente-se ao clamor das estrelas, siga-as. Levante-se a frente daquelas que o inspiraram em glórias maiores do que seus antepassados realizaram, já és tudo o que passou, seja mais do que um mero homem, faça-se.” Eu já era educado como al-Malik, só hoje me dou conta disso.

Onde terminam as obrigações como Duque e onde estão minhas obrigações comigo? Ser considerado excêntrico por seguir meu coração é errado? Não estou fazendo aquilo que esperam de mim como manda a velha e boa etiqueta… Ou… Do modo al-Malik? Excêntrico ao caminhar em meio ao povo nas ruas de Larrane ou no mercado em Samarkand? Excêntrico por amar as estrelas muito mais do que dita a tradição al-Malik? Sou capaz de dizer não ao legado de meus pais? Ou se a partir das estrelas ver que meu lugar não é em Istakhr ou Criticorum? Se puder expandir o legado de meus pais? A única certeza que tenho quando a meu papel são… Dúvidas.

O peso daquilo que é de mim esperado norteia minha existência. Vó Drusila sempre enfatizou meu papel como herdeiro não apenas do Ducado de Perleria, mas da Casa al-Malik, educando-me na esperança de que eu suprimisse desejos pessoais em prol de obrigações como nobre. Minha primeira e maior obrigação é com a Casa al-Malik e suas tradições, no fundo sei que o Caminho das Três Montanhas é apenas uma forma poética que justifica nossos subterfúgios, nestes, preciso ser um mestre.

Dado o momento presente talvez essa busca represente a única chance que terei na vida de finalmente me afastar um pouco das obrigações como Duque. A contradição está exatamente neste ponto: mesmo longe tudo o que fizer deve retornar para a casa al-Malik, conquistas pessoais não são apenas minhas, são al-Malik. Meu título é al-Malik. Minhas terras são al-Malik. Sou um herdeiro da Casa al-Malik. E de mim não é esperado nada menos do que o sucesso.

Rememorando a história da minha vida, posso afirmar que tenho tudo…e nada. Tenho tudo o que um homem pode materialmente desejar em contrapartida minha condição social não me dá liberdade de fazer a maioria das coisas que um homem “comum” faz, sou considerado excêntrico, vivendo no tênue limite entre a excentricidade e heresia.

Nestas horas me lembro das observações contrárias do senhor Gilles sobre alguns de meus hábitos adquiridos e preservados em memória de minha mãe. As lembranças dos momentos em que a acompanhava em passeios junto a nossa população se fazem sempre presente quando estou misturado aos homens comuns. Em Larrane gostava de ouvir as histórias contadas pelo povo sobre ela. Em Istakhr, no mercado em Samarkand era muitas vezes mais divertido negociar e conversar do que muitas recepções na corte fossem em Criticorum ou Istakhr. Confesso que me sinto incomodado com a limitação intelectual e soberba de muitos nobres, o orgulho em se possuir um título é muito maior do que a obrigação de honrar o título possuído.

Como era de se esperar de um Duque al-Malik, minha educação para circular dentro da corte não é menos do que impressionante, devo isso ao senhor Gilles, fui um aluno muito aplicado em todas as lições. Se não fosse por meu tutor possivelmente não teria tanta paciência para lidar com estes nobres tão… Incompetentes. Vejo com muita naturalidade tudo o que se passa na corte, tenho subterfúgios para mostrar que apesar de minha predileção pelos hábitos populares serem considerados excêntricos por estes nobres que execro posso como Duque atuar efetivamente.

Se por um lado, os hábitos da nobreza são previsíveis, não subestimo seus jogos de poder, muitos aliados e inimigos são ganhos e perdidos dentro dos salões principalmente depois das Guerras Imperiais. As batalhas entre as Casas, isto inclui as batalhas dentro das próprias Casas foram transferidas em essência para estes salões em que vivemos tanto tempo.

Interpretando o que meu pai havia dito pouco antes de morrer, conclui ter herdado não apenas seu nome e título, mas também glórias e inimigos. O pacote inclui não só os inimigos declarados. Existe também resistência e desconfiança aos al-Malik e entre os próprios al-Malik. A partir do momento em que preciso trilhar meu próprio caminho, pergunto até que ponto conseguirei avançar em meio a tanta hostilidade. O sobrenome al-Malik pesa. Ser um Duque pesa. Pesa ter nascido em Criticorum. Pesa ser um herdeiro da Casa. Talvez por isso seja uma prática comum ao trilharmos nossos caminhos individuais que ocultemos nossas identidades.

Passei o último ano em Criticorum refletindo a respeito. O senhor Gilles concordou que realmente deveria me dedicar a questão da sucessão, para tal, precisaria me afastar de Criticorum e Istakhr. Ao contrário do que fiz em anos anteriores, não embarquei para Istakhr, meu tutor seguiu sozinho, dando-me cobertura ao levar uma carta até vó Drusila explicando minha ausência, finalmente senti que o momento de avançar entre as estrelas chegara fazendo algo por minha própria conta e risco.

Jamil Al Malik

The Dark Within the Stars mereghost fernandaribeiro78